Contos: Bilíngue

12 abril 2012
 - Please! Dejáme ajudar you.
Ele riu. Mais uma vez.
Definitivamente! Eu sou e sempre serei uma catástrofe. Minha família, quer dizer, meu pai que é o único que sobrou, sempre quis me dar o melhor. As melhores opções; de estudo mais especificamente.  
Mas nem tudo que estudei foi por opção. Hoje com dezenove anos sei falar quatro línguas, estudando a quinta. Inglês pelas músicas, espanhol, porque meu pai queria ir até a Espanha – amei minhas férias lá – o italiano, simplesmente porque ele gosta da comida, o francês “Só para completar o currículo querida”, o japonês nesse momento “Um dia você vai ter que ir lá, é um país desenvolvido”, sem contar no alemão e no mandarim que ele está quase completando a matrícula. Mas aprender quatro idiomas deu uma falha no meu vocabulário normal... o português.
Hoje vejo todo esse aprendizado – e certificados – como nada mais nada menos que problemas!
Posso ter um currículo ótimo, mas sempre vacilo nas entrevistas. Não que seja por medo, fala sério ter medo de um cidadão do outro lado com cara de pomposo querendo te mostrar que a vida dele é melhor que a sua só porque ele tem um carro e uma TV de plasma?! O que ninguém vê é que ELE É APENAS UM SER HUMANO IGUAL A VOCÊ!
Meu problema com as entrevistas é por eu ser bilíngüe. Quando se aprende um idioma não é problema, mas quando aprendi o segundo já misturava Português/Inglês/Espanhol pelo pensamento os outros dois foram parar não só na cabeça, mas também na língua. Falo tudo misturado. Sou motivo de chacota e não sou compreendida. Quem iria me contratar?
Agora estou aqui com as mãos estendidas para Guilherme meu vizinho caído em um buraco que deveria estar fechado – e como é fundo. O problema é que ele não me leva a sério e cada vez que abro a boca ele escorrega um pouco mais.
            - Nina não fica assim, calma.
Ele sabia quando eu estava triste, quer dizer, quem não saberia? Praticamente solto uma cachoeira de tanto desespero.
            - É sério, querida estou bem.
            - No, tu não estás!
Ele riu ainda mais. E caiu um pouco mais.
            - Stop!
Eu não podia dar orientações sem falar, e falando só pioraria a situação.
ESSA COISA DE SER BILINGUE NÃO ME AJUDA EM NADA! Pensei furiosa.
            - Não tem ninguém aqui apenas eu, então fecha essa droga de sorriso lindo e escuta o que estou tentando dizer, caso contrário vai ficar ai a noite toda – gritei e logo em seguida coloquei as mãos na boca.
Depois de anos falando misturado em um ataque nervoso de dois segundos falei mais do que duas palavras. Ele me olhou estático, os olhos fixaram em mim de tanto susto.
            - Sorry.
Eu não tinha apenas falado meu idioma normal; tinha gritado com o único homem que amei em toda a minha vida.
            - Droga! É só português.
            - É parece que você só consegue falar quando está com raiva.
            - Que maravilha. Então vamos logo. Pegue essa corda que vou tentar te puxar.
            - De onde você tirou essa corda?
            - Hapel – era isso que eu fazia no meu tempo livre, que não era pouco contando que não trabalhava, já tinha acabado o ensino médio e estava de férias da faculdade.
            - Você é um grande mistério.
            - Comece a trabalhar – disse puxando a corda.
Ele era bem mais pesado do que imaginei, mas por sorte consegui tirá-lo de lá. A camisa branca estava toda suja e a calça jeans rasgada. Depois que ele conseguiu se levantar eu saí de costas para ele, sem perguntar se estava bem ou coisa parecida.
            - Espera Nina.
            - Hã?!
            - Não posso fazer nada por você, afinal você me salvou a vida.
Guilherme? Fazer algo por mim? Acho que a única coisa que ele poderia fazer...
            - Se puder não ri de mim por eu ser bilíngüe seria bom. Acha que gosto dessa mistura? Ela só me torna idiota. Como odeio isso, mas meu pai só queria o melhor pra mim...
            - Hei – ele me interrompeu e me segurou pelo ombro – Não acho você idiota. Senão eu não poderia fazer isso.
Ele-me-beijou! Tipo assim: Guilherme, meu vizinho, lindo, ator e lindo mais uma vez me-beijiou. E tipo, me pediu em namoro em português, inglês, espanhol, francês, italiano... E sei lá quantas outras línguas. Por que ele também era bilíngüe e me entendia, mas só o que eu queria era ele e os beijos dele, e nenhum idioma me impediria agora.

8 comentários:

  1. Quel, como sempre arrasou! Amei esse conto, o final ficou perfeito. Adorei o romance, o final feliz. :D ficou perfeito. beijinhos

    Aguardo os proximos.

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  2. Estava com saudades do seus contos,vc sabe que adoro vir aqui ler fico imaginando as cenas muito bom Raquel.
    Como sempre mais um romance demais,continue escrevendo para mim voltar sempre e viajar na sia história.
    Abração,Alexandra
    http://magiasbook.blogspot.com.br/2012/04/galerinha.html

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  3. yo,
    Adorei o conto, vc escreve muito fodasticamente bem ^^ segue meu blog ?? umomt.blogspot.com ^^

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  4. Muito legal.
    Só achei que no final ela poderia descrever o beijo dele, e as emoções.

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  5. Raquel querida que conto mara...
    Eu simplesmente amei!
    Foi vc mesma quem escreveu? Vc tem futuro amiga, vai treinando que quem sabe um dia vc faz uma coletânia...
    Beijinhos flor.

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  6. Parabéns Raquel. Gostei muito do seu conto. Você tem futuro menina. ^^

    Um forte abraço.

    http://diogo-pimenta.blogspot.com.br/

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  7. Entrei nessa parte do blog e comecei a ler o conto sem saber que você tinha escrito, só quando cheguei nos comentários que percebi. A minha primeira reação a ler o conto foi QUE FOFO. Gostaria de parabenizá-la pelo conto, ficou muito bom, você tem talento, Raquel, parabéns. ;)

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