Contos: As Verdadeiras Leis do Amor

08 novembro 2012
Por muito tempo temi que pudesse perder o caminho, que o amor me levasse aos escombros. Tive medo de me perder, de deixar de ser quem sou.
Afinal quem da minha urbe já viveu um grande amor? Nem mesmo minha mãe conseguiu, mas sempre incentivou-me a buscá-lo, mesmo que para isso fosse preciso lutar contra o reino. Não imaginei que essa luta seria assim.
- Catarina! – levantei a cabeça e olhei através da grade enferrujada que era mantida presa – É chegada a hora, lamento!
Heitor, meu irmão, havia sido castigado por minha imprudência. Fora obrigado a cuidar de mim dentro da cela, a me entregar bandejas de comida estragada e água suja. Mal sabiam que assim como eu, ele mantinha um amor escondido com Gisele, uma pequena e ingênua cozinheira de bar.
A diferença é que independente de estar quebrando as regras, a classe dos dois era a mesma, e quem da nossa ruela contaria o segredo dos dois? Já meu caso, estava perdido, e logo quando meu pescoço for à forca, estará enterrado.
Tudo começou quando Caio, o rei, levantou a voz no grande salão. Era um velho amargurado que fora abandonado pela rainha, ela morrera de uma grave doença e o que o homem não conseguia entender era porque uma mulher tão jovem e boa tivesse que ir tão cedo. Para que não ocorresse novamente ele decretou que ninguém, jamais, deveria amar – como se isso fosse possível.
E para que sua ordem não fosse desacatada separou toda a população em ruelas, de um lado os homens e do outro as mulheres. Quando levantou-se a questão do nascimento. Se não houvesse amor não haveria casamento e consequentemente não haveria crianças e tão menos adultos. O rei querendo por fim na questão ordenou que as mulheres de vinte a trinta anos fossem todos os meses quando estivessem em período reprodutivo ao Casulo, uma residência com vários dormitórios onde essas mulheres passavam o dia se preparando para se deitar com homens desconhecidos.
Por isso sempre havia muitas mulheres grávidas andando para todos os lados, exibindo o filho que nasceria e logo lhe seria retirado para serem cuidados pelas parteiras, essas crianças não saiam um momento para ver a luz do dia apenas quando completavam dezoito anos e passavam a trabalhar nos comércios.
Mas isso não aconteceu comigo, fui criada por minha mãe, já falecida por conta da idade. Ela era uma parteira muito solicitada, sendo assim nem eu, nem meu irmãozinho que era quatro anos mais novo, precisamos ficar lá.
Morávamos juntos, até conhecer o príncipe Arthur, um homem robusto, alto e de pele clara. Usava trajes de cor vermelha, a cor do reino. Costumava andar pela urbe para ver se as coisas estavam nos conformes.
- Desculpe, – exclamei após seu grito de dor – não o vi aqui.
- Deveria prestar atenção, senhorita. Cestas de bolo não são tão pesadas assim.
- Ora o senhor também não é cego, se me viu com uma cesta de laranjas deveria ter desviado.
Sabia que ele era o príncipe e que poderia me encrencar com um comentário daquele tipo, mas não iria me rebaixar. Ergui o queixo e andei até a venda de frutas entregando a cesta para dona Maria. Esse era o meu último serviço do dia, tinha a tarde livre para fazer o que quiser.
Heitor estaria longe até o anoitecer, ajudava nas obras da velha igreja. E apesar de ser mais novo costumava me dar ordens e checar meus horários. Chegando em casa antes das dez não haveria erro.
Quantas vezes não havia ido ao lago Azul me deliciar com aquela água límpida e refrescante. Primeiro inseria os pés na beira do lago para depois entrar por completo na água. Brincava com os peixes e as vezes me permitia entrar na dança deles dando giros e fazendo bolhas em baixo d’água. Naquele dia queria apenas olhar o belo céu cheio de aves, havia se passado um longo período de chuva e o sol voltava com um brilho forte e quente. Retirei o longo vestido verde e entrei com as vestes de baixo nadando até a outra borda do lago.
- Lembro-me que entrar no lago é proibido – ouvi.
Arthur estava escorado em uma macieira e olhava instigado para o meu vestido no chão. Olhei com deboche para ele e dei mais um mergulho.
- Se estivesse aqui dentro não se importaria de estar quebrando uma regra – joguei um pouco de água para cima.
- Se entrasse nessa água seria para te prender!
- Então o que esperas? – suas palavras soavam como um desafio, e adorava ser desafiada, pus as mãos na cintura aguardando sua reação.
Me olhando de soslaio e com um sorriso maroto ele retirou as botas, deu uma leve olhada para trás e retirou o resto da roupa. Colocou as mãos na água e depois os pés, logo estava nadando com muito esforço até mim.
Seus olhos estavam vermelhos e algumas folhas estavam em seu cabelo castanho. Ele passou a mão no rosto para me enxergar melhor e não consegui segurar o riso frouxo. Aquelas folhas pareciam algum tipo de peruca, retirei-as de seus fios e quando seus olhos viram o motivo do meu sorriso logo desatou a sorrir também.
Passamos horas no lago, apostando corrida, ou simplesmente nadando com folhas na cabeça.
- Pensei que fosse me prender – indaguei após um momento.
- Era o plano, mas não posso – disse ele moribundo.
- Ora, por que não?
- Você é livre demais para ficar presa – deu um sorriso sem graça.
Não me lembro bem como cheguei aos seus braços, só sei que me perdi neles, e não só naquele momento! Passamos a nos encontrar por vários meses, andávamos escondido por lugares menos populosos, me entregava a ele sabendo que não era certo. Sempre querendo sentir o calor de seu corpo e suas mãos no meu, sabia que depois de alguns meses não seria assim, seria minha hora de ir ao Casulo os vinte estavam próximos. Mamãe sempre me disse que não seria agradável, e que por isso deveria buscar em um, apenas um, o sentimento que me tiraria os pés do chão e me faria perder o bom senso. Era isso que sentia quando estava com ele, sei que a Catarina sensata não estava mais ali, ela já havia se perdido.
Em uma tarde, Arthur não foi me ver como combinado, mas recebi a visita de um guarda. Meu irmão alarmado gritava por resposta, mas ninguém ali sabia o que exatamente acontecia. Fui acorrentada e meu irmão me acompanhou até o castelo. Fui prostrada de frente para duas cadeiras de estofado dourado, meu irmão foi obrigado a ficar ao meu lado também no chão.
Logo o rei Caio e o príncipe Arthur chegaram ocupando as cadeiras. Arthur me olhou triste, mas seu pai também sabia falar com o olhar e lhe lançou um que mais parecia uma lamina.
- Esta aqui por um motivo, e acredito que saiba qual é! – exclamou ele me indagando, me mantive calada – Aliciou meu filho a quebrar minhas próprias regras, primeiro indo ao lago, depois... – as palavras penderam no ar, ele bateu a mão no batente da cadeira claramente indignado. – Está ciente de que para qualquer regra quebrada há punição de morte. E seu irmão também sofrerá.
- Como? – pronunciei com a voz falhando, engolindo as lágrimas. Mantive os olhos no rei para não deixá-las cair. – Mas ele nada fez, não o castigue.
- Calada Catarina, não estou lhe pedindo opinião. Sou o rei, e apenas eu decido quem punir.
E assim cheguei a atual situação.
Heitor chorava, uma noite havia dito que não conseguiria sozinho, que também se mataria. Não queria viver sem mãe e sem irmã. Lhe disse que era besteira e que tinha Gisele, ele apenas negou e disse que a moça nada queria com ele, eram apenas amigos.
- Catarina Rabelo entrava no lago escondida e se encontrava com um homem, ciente de que seus atos seriam punidos. Todos estão aqui para serem lembrados que as leis ainda existem. – A praça estava cheia, muitas pessoas conhecia desde pequena – Arthur! – O príncipe olhou para o pai bastante desconfortável – Quero que sirva uma dose de nosso veneno a senhorita.
O rei lhe entregou uma garrafa que estava na metade, pelo menos não seria enforcada ou degolada, talvez o rei tivesse um pouco de compaixão. Mas aquele pedido ao filho era lastimável.
Arthur vinha em minha direção com as mãos tremendo, quando nossos olhos se encontraram; naquele momento não ouvia mais os gritos de Heitor que estava sendo segurando por guardas, não ouvia mais as críticas, era apenas nós. Ele se abaixou colocando o dobro do necessário na taça, colocou-a no chão e me deu um beijo rápido chocando a todos presentes. Retomou a taça nas mãos e ingeriu metade do líquido vermelho me entregando o resto. Tomei o veneno confiante de que após fazer efeito poderíamos ficar juntos sem temer nenhuma lei.

12 comentários:

  1. Parabéns pelo conto Raquel! Muito bem estruturado, com um enredo doce, mas triste pelo fim. Você escreve muito bem, suas descrições são ótimas e conto ficou demais! Espero poder ler mais de seus contos!

    Bjs

    www.daimaginacaoaescrita.com

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    1. Obrigada, espero eu poder estar sempre escrevendo!

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  2. Oi Raquel!

    Parabéns pelo conto. Fiquei comovida ao seu final. Ele nos prende desde o início. Ficou ótimo o conto. Também escrevo contos, mas só publiquei um até agora. É muito bom encontrar outras pessoas para compartilhar.

    Beijos Fran Borges

    http://poesiasprosasealgomais.blogspot.com.br/

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    1. O final ficou triste porque eu precisava de algo forte já que era para uma seletiva de antologias, mas como desisti o publiquei aqui mesmo. Também gosto muito de encontrar pessoas que amam ler e ainda escrevem (ou tentam, ainda assim é lindo viu Viviane!).

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  3. Oi Raquelzinha!

    Li de novo e adorei de novo!
    Mas fazer o quê né? Ler em "primeira mão" é ainda mais maravilhoso!
    kkk.
    Você tem muito futuro linda.
    Beijos*

    http://luahmelo.blogspot.com

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    1. Me sinto muito grata por ter lido em primeira mão, você é uma pessoa de confiança, pena que não deu para o que eu queria. Continue escrevendo também Luana.

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  4. Nooossa Raquel, adorei.
    Devorei o seu conto em alguns minutinhos, e gostei demais.
    Sabe que aprecio sua forma de escrever né?
    Mas poxa, fiquei triste no fim, mas feliz pelo príncipe ao menos ter a decência de ficar com ela.
    Parabéns querida, escreva sempre.
    Beijinhos
    Vivi
    RR

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  5. Oi, oi!
    Que belo conto! Ameeei
    Parabéns!
    E continue escrevendo *-*
    Bjss

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  6. Gostei bastante, muito bem escrito.
    Continue sempre escrevendo.
    bj

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  7. Olá!
    Ótimo conto, extremamente bem escrito! Gostei do desenvolvimento.
    Beijos


    Andressa
    umdiaacadalivro.blogspot.com.br

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  8. Como você disse no grupo Apenas Livros: 'É um conto extenso'.
    Porém eu adorei, me cativou...
    Parabéns!
    http://coracoesdeneve.blogspot.com.br/

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    1. Eu avisei, fico muito feliz por ter encarado o tamanho e dado uma chance!

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